Eu sei porque você foi embora, eu sei que não tinha razão pra você ficar mais um pouco, mas mesmo assim eu queria. É, eu sei, decidimos juntos. Ou pelo menos eu te fiz acreditar que sim. E é engraçado pensar que tudo partiu de mim, eu sei, eu estava cansada, eu fico cansada de vez em quando. É que geralmente eu sento e espero o cansaço passar, porque senão eu acabo fazendo besteira, e me arrependendo depois. Sei lá, eu sei, eu sou complicada, é, você já me disse isso. Aliás você já me disse tanta coisa, tanta coisa bonita e tanta coisa doída, essa tua eterna mania de dizer de tudo sempre, e sempre com o mesmo sorriso branco no rosto, eu às vezes me pergunto como é que você consegue manter esse sorriso em todos os momentos. Eu queria aprender isso, que às vezes sorrir me faz falta. Mas o que eu queria te dizer, é que eu sei que você está indo embora, sei que não tem volta, sei que é a única coisa que faz sentido, eu sei, eu sei, mas às vezes a gente se apega ao que não devia. É que a vida dá medo, soltar as mãos dá medo, ver-se sozinha diante da queda dá medo, muito medo. É, eu sei, você me acha tão valente, você me disse aquele dia, mas eu acho que eu mostro muito mais do que sou. Porque quando todo mundo vai embora, quando todas as luzes se apagam, quando eu fico sozinha no meu quarto e vem o silêncio, eu me sinto pequenina de um jeito que parece que o mundo vai me esmagar no instante seguinte. Não é que eu não saiba estar sozinha, não é que eu não queira, é só um medo de me perder em mim. Tem tanto aqui dentro que eu ainda desconheço, eu desconfio que é tudo poesia, que é tudo beleza, mas tenho medo do que vai ser se não for. Sei lá, o abismo. A queda.
É, eu tenho medo. *


