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Desabafo...
Estou cansado. Sinto-me separado e distante de tudo. Não escrevo. Se escrevesse, iria caricaturar-me. Estas coisas têm tempos. Têm dias, e parece que depois passam. E tudo regressa. Com a força e o fulgor de sempre. É estar distante. É uma sonolência sem sono. Uma vontade de dormir sem vontade de adormecer. Um eco desde a distância. A possibilidade de uma redenção tardia. A procura dos teus braços. A procura da certeza dos teus braços. Começar, por ti. Recomeçar tudo, por ti. Não por mim. Já não por mim. Esgotei-me. Esvaziei-me de tudo. Não existe nada dentro. Nada porque valha a pena recomeçar. Não por mim. Por ti. Terás força para me erguer? Terás força para me suster quando eu cambalear? Às vezes só me apetece cair. Fechar os olhos. Não resistir mais. Não lutar mais. Não nada mais. Fechar os olhos. E ir.De quem foi essa traição mortífera? De quem foi esse gesto que carimbou com uma tatuagem negra todas as ilusões? Quem fez nascer em mim esta noção de paraíso perdido? Esta lembrança de perfeição, este esquisso de memória onde tudo era perdeito? Alguma vez existiu? Ou fui sempre eu que sonhei? E quem me traiu enquanto eu dormia? Quem me traiu? Quem?Lentamente vais chegando. Quero acreditar. Não quero que nada leve esta fé de mim. Protejo-a. Mas talvez a deva proteger de mim próprio. Do cansaço. E do sabor acre dessa traição indefinida. Havia um sonho em que não sonhava nada. Era apenas a angústia. Toda a angústia de todas as coisas, concentrada. A angústia da desilusão. A angústia da traição. A angústia da culpa e do egoísmo. A angústia. A pressão demasiada no peito. A criança outra vez. E a sua pureza intocável, porque nada disto existia na criança. Era total. E depois deixou de ser. E hoje não sou. Vários níveis de percepção e de consciência. Conheço-os a todos. Sou capaz de apontar cada um deles dentro de mim. Isto é princípio básico da pureza aniquilada: a presciência. O auto-conhecimento. Só quero que me digas que é mentira. E que me deixes chorar. Me deixes chorar todas as coisas que tenho para chorar. São tantas. São todas.A biologia impele-me no sentido do tempo. Existir é sempre uma opção. Que eu tomo todos os dias. Não existo por acaso ou por esquecimento. Existo porque quero. Porque haverá paz para a criança. E porque se me deixares chorar e me abraçares, eu sei que todas as traições serão esquecidas. E, de alguma forma que apenas pressinto, a pureza será recuperada.
Ninguém compreende que já não sou a menina que acreditava na religião incutida pelos pais durante a sua infância…
Ninguém compreende que cresci…Ninguém compreende que já não brinco com bonecas, que questiono sobre o que me mandam fazer, pois tenho as minhas próprias opiniões, que não acredito na igreja nem nada que tenha a ver com a religião…Ninguém compreende que digo o que penso…Ninguém compreende o que penso (sou muito mal interpretada), o que faço ou sinto…
O pior de tudo…São as pessoas que me deveriam entender…São pessoas que vivem comigo na mesma casa, convivem comigo dia-a-dia…Contudo, não me entendem, não me entendem…


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